MP investiga currículo do secretário-geral do PSD

MP investiga currículo do secretário-geral do PSD

O secretário-geral do PSD incluiu no seu currículo oficial e nos livros que publicou, desde 2009, o estatuto de "visiting scholar" da Universidade da Califórnia, em Berkeley, mas nunca esteve em Berkeley, noticiou a última edição do semanário SOL.

A instituição assinalou que não encontrou qualquer registo de Barreiras Duarte enquanto detentor desse cargo.

O secretário-geral do PSD também usou o falso estatuto de professor convidado na Universidade norte-americana de Berkeley no âmbito da sua tese de mestrado em Direito, na Universidade Autónoma de Lisboa. A professora reagiu de forma taxativa: "Esse documento é forjado".

Entretanto, depois de ter dito que a carta que Barreiras Duarte usava, para comprovar o estatuto de professor convidado em Berkeley, era uma falsificação, Deolinda Adão, que deveria orientar os estudos do político do PSD na Universidade norte-americana, veio afinal reconhecer a sua validade. No entanto, a docente esclareceu que Feliciano Duarte nunca lhe apresentou qualquer trabalho académico e admite mesmo que o documento apresentado possa ter sido forjado.

Confrontada pelo Sol com as declarações de Barreiras Duarte, Deolinda Adão não teve dúvidas: "A princípio, ainda quis dar o benefício da dúvida porque recebemos muitos alunos há vários anos e poderia não ter memória deste".

Barreiras Duarte garante que a "relação" como 'visiting scholar' se deu, ainda que a "estadia", por outro lado, não se tenha consumado.

Na plataforma pública De Góis - financiada pelo Ministério da Educação através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia [FCT], que reúne os currículos e a produção científica dos investigadores académicos portugueses - Barreiras Duarte apresenta-se como "doutorando em Ciência Política, com tese sobre Políticas Públicas e Direito da Imigração, pela Universidade Lusófona de Lisboa e pela Universidade de Berkeley, Califórnia, EUA, onde desde o ano de 2009, tem o estatuto de Visiting Scholar". Sobre a carta de Deolinda Adão disse, ao Sol: "Façam uma perícia à assinatura dela". A investigadora disse ainda que a carta jamais podia ter sido escrita em português porque não é essa a prática da instituição.

Em Berkeley, segundo os estatutos da universidade, para se obter o estatuto de 'visiting scholar' são necessários requisitos como a permanência na Universidade para desenvolvimento da respetiva investigação por mais de um mês, e também a apresentação de um application form - que corresponde a um certificado de candidatura.

"Eu disse que era de Berkeley porque era verdade", constata ainda Barreiras Duarte ao Observador, embora nunca tenha efectuado qualquer trabalho na instituição, nem sequer lá tenha ido. Nesta segunda-feira, numa nota enviada ao Observador, Deolinda Adão clarifica que o que redigiu foi um convite, e em inglês, para Feliciano Barreiras Duarte ser visiting junior scholar de Berkeley e que este não deu seguimento ao processo.

"O estatuto [de 'visiting scholar'] acabou por oficialmente nunca ser tornado realidade". O responsável voltou a confirmar o cargo quando tomou posse como secretário de Estado adjunto de Miguel Relvas no governo de Pedro Passos Coelho, em 2011. "A partir daí, a única coisa que se manteve foi a possibilidade de estar entre os membros do júri que viessem a avaliar o doutoramento dele". A preparação de material académico, diz o ex-secretário de Estado, é que "sim, foi produzida". O ex-secretário de Estado num Governo PS sublinha que "é normal que um mestrando se esqueça de todos os dados do seu currículo ou que se engane numa nota final", mas releva que "fazer referência a uma universidade que nunca frequentou é grave". Os tais papers que Deolinda Adão, professora em Berkeley, nega ter recebido, que Pinto de Abreu diz "nunca ter intermediado" entre esta e Barreiras Duarte, e que o político disponibilizou ao SOL.

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